Hoje de manhã, enquanto respondia uns e-mails e apagava outros, achei uma conversa antiga com aquele amigo tão lindo e tão incrível por quem eu nutria uma admiração sem tamanho. Era uma conversa daquelas que a gente ri sem saber exatamente do que, mas no fundo sabe que não é pelo assunto, mas sim pela pessoa que está conversando.Mergulhei na nostalgia.
Entre tantas coisas que entendi, uma delas foi que tudo começou no dia que ele me tirou pra dançar e fez com que eu esquecesse tudo ao redor, porque ali eu estava dançando com o melhor amigo do todos, ou o melhor dançarino de todos, e qualquer coisa que ele fizesse, ele seria o melhor de todos pra mim. Eu nunca escrevia um texto pensando nele, aquilo que eu sentia era limpo demais, pra eu sujar escrevendo um monte de asneiras e definições, que seriam sempre pequenas quando comparadas com nossos risos fáceis e beliscões sem motivos.
A gente era livre. Não existia nenhum compromisso sério, nem alianças ou almoços com a família, mas a gente queria o bem um do outro, a gente tinha um cuidado com o sentimento como se ele fosse de cristal, cada palavra tinha um milhão de significados, e todos apenas reforçavam o quanto aquela coisa de outro mundo era forte. A gente nem se agarrava, nem se comia com os olhos, mas um ele me dava a mão e eu sabia que estava recebendo a energia mais positiva que ele tinha e compartilhando um pouco do sentimento mais louco e confuso que existia em nós.
Cada um sabendo quando era a hora de matar a saudade do outro, e pelo menos mandar uma mensagem bem ridícula às duas horas da manhã. Então talvez por causa de tudo isso, eu jamais cogitava a possibilidade de escrever sobre nós. Parecia pecado. Eu costumava escrever sobre a vida, o medo, os caras imbecis que estragam tudo, e tantas outras coisas que dessem na telha, mas sobre nós não.
Podia passar quanto tempo fosse, não importava, qualquer encontro por mais curto que fosse era o suficiente para restaurar a nossa intimidade. Foi a partir daí que me ferrei.
Por tanto tempo amando, cuidando, desejando, respondendo mensagens e socorrendo na carência, eu virei opção certa. Não tinha dúvida nenhuma que se me ligasse eu ia atender, que se me pedisse socorro eu cruzaria a cidade e iria socorrer. E acredite, não existe nada pior do que virar opção certa.
Então hoje estou escrevendo sobre ele porque ele virou um cara igual à todos os outros que mereceram um texto meu. E nosso sentimento de cristal virou pedra pra ele feito todos os outros que passaram, e por isso eu posso escrever sem medo de quebrá-lo, sem ligar nem responder mensagens, até porque não chegam mais mensagens. Ele se tornou alguém que não tá nem aí pra toda a porcaria que aconteceu entre nós. E eu vou me tornar alguém assim também.
Então dane-se, as pessoas mudam e eu devia ter me acostumado. E dane-se ele, o sonho de amizade colorida eterna, o tempo que perdemos e a raiva que já deixei de sentir.
E como diria a maior musa da literatura Clarice Lispector "Não se preocupe comigo, eu sou feliz."
Coldplay - Paradise
Life goes on
It gets so heavy...
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